17/10/2010

O que sinto quando tenho Saudades







Primeiro uma sensação de nada, um vazio de tal forma profundo que não nos permite sentir o que quer que seja, o nosso coração gela e fica suspenso no tempo.

Não sei ao certo durante quanto tempo me senti assim, no entanto ainda tenho momentos em que paro e gelo, em que não me apetece ser nada nem ninguém, o coração fica pequeno e sem espaço, recusa-se simplesmente em acreditar.

Mais tarde, porque a vida tem de continuar, encontram-se estratégias, formas de ignorar e acaba-se por viver um pouco num mundo de faz de conta em que dia após dia agimos como se nada tivesse acontecido.
Na realidade não muda nada. Fechar os olhos e imaginar um mundo nosso só adia o inevitável.

Vai sempre existir um momento na vida, que de tão feliz ou de tão triste, vai despertar todos os sentimentos adormecidos que ficaram escondidos e camuflados.
Nesse momento as saudades são tantas que só nos apetece chorar, gritar, gritar bem alto o quanto foi injusto para nós, que nada nem ninguém tinha esse direito, o direito de arrancar a vida dos nossos heróis, de os roubar de nós. 

Dia após dia vamos dando mais um passo para aceitar e tentamos dar o melhor de nós em tudo o que fazemos porque sabemos o quanto os fará sentir orgulhosos.
Seremos fortes, seremos guerreiros, nunca iremos desistir de nada! ...só para imaginar um sorriso no rosto que nos irá reconfortar e aquecer o coração.

Por mais lembranças que tenha, memórias guardadas a sete chaves, cheiros, palavras, momentos, fotografias, nada substitui o abraço que tanta falta me faz e do qual tenho tantas saudades.


"A saudade é a memória do coração." 
(Coelho Neto)


3 comentários:

  1. Tio Telmo, Avó Mila, Avô Joaquim e Tia Luisa sempre no coração ♥

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  2. Sento-me a janela de bloco na mão, mas as palavras estão atadas ao nó na garganta. A linha que as segura ao papel vai ficando esbatida entre a realidade e a ânsia. Demoro apenas 10 segundos a organizar o que tenho para te dizer... e depressa o pulso roda, a caneta movienta-se estonteante e palavras vão desenhando no bloco os quadros que nunca te mostrei. Quero-te deixar bem feliz, por isso invento, mas só um pouquinho, invento ambições maiores do que as minhas, dou razões a acções sem razão nenhuma, e falo com um ar importante. Acho que sempre me gostaste de ver com um ar importante; faz-te sentir importante também.
    Enquanto te escrevo, vou adivinhando as tuas respostas, os risos de troça, e os gestos de carinho. Mesmo sem querer, e acredita que não quero mesmo, quase cada linha vai dando razão aos teus conselhos.
    Descrevo-te os meus dias, os meus rituais. Queixo-me das monotonias e ironias da vida. Vou falando, falando, e sei que me escutas como sempre: com um brilho de amor nos olhos.
    Com o tempo fui arranjando esquemas para te manter viva para mim. Guardo por toda a casa sinais teus, e luto todos os dias contra a memória, para que nela nunca se apague o teu rasto. Cheiro ansiosamente tudo o que encontre, que te tenha pertencido, e logo logo sinto-me reconfortada. Falo contigo todos os dias, bem alto, porque estás velha e ouves mal, e adivinho as tuas respostas. Até me riu delas! Crio diálogos na minha imaginação, e quando dou por mim a chorar já não estranho, já faz parte. Mas o que mais gosto são as fotografias. O molhinho pequeno de fotos a preto e branca, encontrados no fundo de uma gaveta, quadrados de papel que cabem num bolso e guardaram em imagem a tua juventudo. Não da velha de mãos enrugadas e joanetes que me lembro, mas uma rapariga. Uma rapariga nova, de cabelos soltos e compridos que ela tenta segurar, de vestido branco cintado, em pé num jardim em que adivinho flores roxas, na grande cidade cheia de grandes ambições. Então começo a viajar naquele que julgo ter sido o teu mundo, e vou ganhando mais tempo contigo. Relaciono os nomes e lugares que me falavas, e até começo a dar caras a histórias em te perdias... Porque isso sim, eras uma senhoras de histórias!
    Ai e como isso me aborrecia! Se alguma vez adivinhasse a faltas que elas me fariam... Hoje escuto-as sozinha, dentro da minha cabeça, e só me apetece gritar "então e depois?", para que nunca te cales, nunca me deixes a sem saber, para que nunca acabes essa história e possamos ficar as duas, assim, sentadas à janela, eu de bloco na mão, e tu, de olhos fechados a aquecer-te com o sol...

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